Meu coador não aguenta!!!

Este texto foi publicado originalmente em 14 de junho de 2013 e republicado hoje – 29 de setembro de 2014 – em resposta a Levy Fidelix. O obscuro candidato presidencial afirmou em debate televisivo ontem à noite que “aparelho excretor não reproduz” em referência à homossexualidade.

Tirei o filtro, minha bunda vociferou. Hoje escrevo em português pela primeira vez em seis anos. São sentimentos que não dá pra traduzir.

A última vez que escrevi em minha língua materna foi em 2007. Desde então, só publico artigos em inglês, tanto em minha coluna na JungleDrums quanto no Guardian. Optei pela língua de Shakespeare para ter uma audiência mais ampla, já que vivo em Londres há 16 anos, e também para servir como interlocutor da cultura brasileira no Reino Unido.

Nunca me dissociei do Brasil. Tenho uma relação muito forte com esse mulato sarado e faceiro, só que a longa distância. Nos amamos profundamente. Trata-se de um amor espiritual, intelectual e carnal, que nada pode abalar. Mas só funciona morando longe, e acabamos brigando se passamos mais de duas semanas juntos. Por isso sigo em Londres.

Fico angustiado quando meu mulato adoece, se mete em confusão ou se revolta, como tem acontecido nas últimas duas semanas. Nestes momentos, queria estar mais perto apara acompanhar e entender melhor o que está acontecendo, e para poder ajudar. Então faço o que posso do outro lado do Atlântico: escrever.

Hoje escrevo sobre bundas, cura gay e hipocrisia. Faço-o em português, sem coador, sem filtro linguístico e sem embaraços. Há coisas que não são tangíveis para uma audiência britânica e internacional.

Por exemplo, como explicaria para a Rainha Elizabeth quem é Mara Maravilha? Uma quenga biscateira convertida em $erva de Deu$ (a cantora go$pel mais bem paga do país) que esta semana rotulou os gays de “aberração”, declarou que um beijo homossexual dentro de uma igreja é crime, e ainda disse que tem vários amigos gays que gostariam de deixar “tudo isso” (ou seja, converter-se hetero). Cara Mara, você não pode considerar-se “amiga” de nenhum gay.

Pior,  como descreveria Sarah Sheeva, pastora evangélica e filha de Baby do Brasil, para o Príncipe Williams e a Duquesa de Cambridge, ambos assíduos leitores de minha coluna? Esta também $erva do $enhor esclareceu em rede nacional que Deus é inteligente pois deu cheiros diferentes a coisas distintas justamente para que soubéssemos o que fazer com cada uma delas. Em síntese, ela acha que o sexo anal é sujo e que devemos manter distância da bunda dos outros. Concluímos que o ânus de Sarah é imundo (suponho nunca ter feito a chuca) e que sua genitália tem odor natural de baunilha. Também podemos inferir que Deus não compartilhou sua infinita inteligência com essa pobre mortal.

Claro que não deixarei de falar de Infeliciânus, o rei da ignorância, intolerância e hipocrisia. O caríssimo presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara também crê que o sexo anal é uma perversão e por essa razão gentilmente propôs a votação de um projeto de “cura gay” na Câmara. Assim como Sarah, este brilhante locutor já declarou que o ânus é sujo, pois da bunda saem dejetos. Suponho que seu pênis expela água de cheiro.

Outros religiosos têm opinião parecida. Edir Macedo acredita que sexo anal é como um “um belo jantar a dois no lixão”.

É importante esclarecer, no entanto, que nem todos religiosos são homofóbicos, e que muitos praticantes (principalmente católicos) abraçaram a diversidade e a tolerância apesar das doutrinas ortodoxas de sua sé. E há até mesmo pequenas denominações como os quakers que apoiam a causa gay.

Mas de onde vem a obsessão dos religiosos antedeluvianos com o sexo anal, com tamanha riqueza gráfica e olfativa? E por que insistem em associar e reduzir a homossexualidade a esta prática? É um exercício moralista, difamatório e hipócrita. Os argumentos são pífios e enganosos.

Em primeiro lugar, apenas uma minoria dos homossexuais é adepta do sexo anal. Grande parte das lésbicas não o praticam, e há muitos homens que não gostam (os gays brasileiros são muito mais sexualmente comedidos que os europeus). Já entre os héteros brasileiros, o sexo anal é bastante difuso. O machão brasileiro gosta mesmo é da porta de trás.

Por isso, o sexo anal é provavelmente muito mais comum entre os héteros que entre os gays no Brasil. Claro que não dá pra provar isto cientificamente. Ao não ser que façamos todos o teste da farinha. Do jeito que as coisas andam, não me surpreenderia se em breve alguém sugerisse sua implementação.

Em segundo lugar, o coito é apenas um pequeno elemento do amor e do sexo. As formas de expressão são infinitamente mais amplas e complexas.

Meu coador não aguenta tanta ignorância!

O discurso homofóbico dos reacionários religiosos vem quase invarialmente escoltado por um “não tenho nada contra gays, mas…” seguido de uma barbaridade preconceituosa. Os argumentos incluem “os gays são exibicionistas demais” e existe uma suposta “máfia gay” querendo corromper nossas crianças. O problema é que para essas pessoas qualquer demonstração pública de afeto entre homossexuais é uma aberração.

O cantor Agnaldo Timóteo chamou Daniela Mercury de “imoral” e “perversa” simplesmente porque ela beijou sua esposa na televisão. Mesmo assim, esse gênio musical utilizou-se da premissa “não tenho nada contra os gays”. Imaginem se tivesse! Então quer dizer que os héteros têm o privilégio de se amarem em público e os gays devem envergonhar-se de fazê-lo? Ah, tá!

Conheço vários casais homossexuais com filhos, entre eles meus amigos Jander e Dann, minhas amigas Emily e Ellen e minha ex-cunhada Maria e sua parceira Louise. Todos estes lares são estáveis e sadios (diferente de muitos casais héteros). Não há razão para vergonha. Gays não corrompem crianças; eles as protegem e criam com muito amor e carinho.

Por isso, caro Infeliciânus, Mara Maravilha, Sarah Sheeva, Bispo Edir Macedo e Agnaldo Timóteo – o crème de la crème da intelligentsia brasileira – ofereço a vocês minha bunda. Poderão assim conferir definitivamente que o ânus é limpo e cheiroso, cheio de amor e desprovido de vergonha. Também poderão ver minhas suntuosas curvas e misteriosas dobras, as quais poderão fantasiar e desejar à noite conforme sua conveniência.

Aproveito a oportunidade para esclarecer que não tenho nada contra homofóbicos, contanto que eles não se beijem, não se casem, não se reproduzam. Enfim, não saiam de casa e nem respirem. Galera de “Jesus”, desaquendem a indaca do meu edi que eu quero é ser feliz.

* a foto original deste artigo ilustra a bunda do autor. Foi removida graças ao Esquadrão da Moral e Bons Costumes do Facebook, rede social onde os artigos da JungleDrums também são promovidos.

3 Comments

  1. Georgia Nomi

    Vic querido,
    Não conhecia seus diversos escritos nas terras estrangeiras e não sabe o quanto ando me divertindo com eles!! ;-)
    Esse realmente foi imperdível, tive que fazer um comment, ainda mais com foto do coador da Leyla!!
    ADOREI!
    Bjo grande (na bunda) e saudades!

  2. Victor Fraga

    Cara Alalyah,

    A sua noção de perfeição (“homem e mulher”) é bem rasa e parcial. Felizmente vivemos num estado laico que discorda de você, assim como a maior parte dos leitores da Jungle. Trata-se de uma galera jovem, com uma visão moderna e sofisticada, desprovida de preconceitos.

    Vale também esclarecer que como gay não busco “disculpas” [sic] por minha sexualidade. Se pudesse, nasceria gay de novo. E cheio de amor pra dar!

    Um grande abraço, e meu edi cheio de nena pra você!!!

    Victor

  3. Aaliyah

    Este texto fala tanto de religiao e hipocrisia, mas na realidade o contexto e completamente hipocrita. Para comecar esta pessoa nao entende nada de religiao, segundo todos gays sempre querem disculpas de serem gays mas na realidade sao e safados, como qualquer outras pessoas safadas; que tem atos sexuais fora da perfeicao criada, Homem e Mulher. Enfim nunca havia lido um texto tao ridiculo e hiprocrita como este, Nao foi engracado e nem serviu de exemplo, muito menos licao de sabedoria.

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