Afugentando estrangeiros

“Nós não vamo paga nada
Nós não vamo paga nada
É tudo free!
Tá na hora agora é free
Vamo embora
Dá lugar pros gringo entrar
Pois esse imóvel está prá alugar…”

“Aluga-se” – Raul Seixas (1980)

Desde minha volta para o Brasil em 2011, conheci vários estrangeiros. Andando pelas ruas de capitais como São Paulo, Rio, Belo Horizonte ou Brasília, tem expats, gringos por todo lado. E os números não mentem: de acordo com o IBGE, o número de imigrantes por estas bandas cresceu 63% na última década…quer dizer, a vontade de se mudar de mala e cuia para o Brasil nunca foi tão grande.

Mas será que todo gringo imediatamente cai de amores pelo Brasil? Será que nossas belezas naturais, música, arte, culinária e um milhão de outras coisas que compõem esse mosaico chamado Brasil são suficientes para fazer com que esse pessoal viva aqui happily ever after?

A real é que muitos dos estrangeiros que vem para cá com uma idéia do país que raramente coincide com aquela imagem que se vê nos cartões postais, livros de mesinha de centro ou documentários do Michael Palin.

Pra começar, o clima é uma constante insatisfação para nossos hermanos. Como nem todo mundo mora em locais onde é possível chegar à praia mais próxima em 10 minutos, já bate uma big duma decepção.  Principalmente quando chegam em janeiro/fevereiro, época do ano em que o brasileiro praticamente precisa de um caiaque para se locomover.

E uma vez que desembarcam em terra brasilis, os estrangeiros precisam correr atrás da vida –que muitas vezes significa pegar o busão lotado, respirar o ar poluído, enfrentar o trânsito caótico, decifrar procedimentos, cartórios, repartições públicas, falhas de comunicação…além do fato de que nada aqui – ou quase nada – funciona do mesmo jeito que era lá na gringa.

Acima de tudo, o que parece realmente tirar os expats do sério é nosso jeito de fazer as coisas. Explicar o jeitinho brasileiro é assunto para outra prosa, mas a forma de se tratar, de resolver conflitos, de fazer as coisas acontecerem quando se lida com os “nativos” é um dos maiores desafios que o estrangeiro encontra por aqui. Tipo, como assim, esse documento só vai sair em um mês? Como assim, tem que pagar pra entrar num bar antes mesmo de entrar? Como assim, “só um minutinho”?

O Brasil não é para principiantes, mas isso muitos gringos aprendem na marra. E à medida que encontram essas dificuldades, nosso Brasil vai se tornando cada vez mais distante daquela terra prometida que eles esperavam encontrar.

Assim, encontrar estrangeiros que odeiam viver no Brasil virou algo comum. Já perdi a conta de quantas pessoas vi chegar e partir – não antes de bradar aos quatro ventos que merda era viver aqui e, tal qual a Carlota Joaquina, dizer que nem nossa poeira da sola dos sapatos queriam levar.

Existem outros tantos que toleram viver aqui, pelo menos por enquanto. Citam a Copa e os Jogos Olímpicos como marcos em seus planejamentos – depois desses eventos, cairemos fora, dizem. Então, pra que fazer planos como investir recursos aqui, pagar impostos – ou até mesmo ter um visto válido de permanência no Brasil?

O que fazer numa situação dessas?

Além de utilizar a mão-de-obra desses estrangeiros – em sua grande maioria super qualificados – o Brasil também precisa incluí-los de uma forma mais adequada na sociedade, além de fazer com que o início da vida no Brasil seja menos brutal.

A perspectiva internacional dos imigrantes pode nos ajudar a resolver vários de nossos problemas, mas como é possível fazer isso se eles estiverem confinados em guetos de expatriados ou contando os dias para dar o fora?

As dificuldades que enfrentamos no Brasil são várias, sim – e não vão sumir da noite para o dia. Mas se não aproveitarmos o que esses imigrantes têm a oferecer, as profecias de Raul Seixas citadas na música do início desse artigo, em breve se tornarão uma realidade mais óbvia e irreversível do que é atualmente. Só que aí, não vai sobrar mais nada.

Imagem: Jack Two (cc)

2 Comments

  1. O gringao

    Great article.
    The thing I miss most about England when I am in Rio are the free public spaces. Not living in the zona sul, I really miss public parks and green spaces where you can just escape the traffic and noise and be alone for a short time.
    The TV is horrible as well. Makes channel 5 look good and the pages of the Daily Express look diverse.
    Still, lots of amazing things that only Brazil has.
    Finding a happy balance seems key.

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